O setor de gemas coloridas, que move US$ 10 bilhões ao ano, está envolto em mistério e irregularidades.
Richard
Hughes é o "Indiana Jones" moderno das pedras preciosas. Há décadas,
esse americano percorre o planeta atrás das gemas mais valiosas,
encarando pelo caminho aventuras dignas do cinema. Essa indústria, que
movimenta US$ 10 bilhões por ano, é envolta não só em beleza, mas também
em mistério.
Ao contrário do negócio
mundial de diamantes, que é em grande parte controlado por empresas
gigantes como a De Beers e minuciosamente monitorado por investidores e
banqueiros de Wall Street, o mundo das pedras preciosas coloridas ainda é
dominado por pequenos mineradores e aventureiros que vão a alguns dos
lugares mais perigosos e subdesenvolvidos do mundo em busca de novos
tesouros. As melhores pedras tendem a vir de países como Madagascar,
Tajiquistão, Colômbia e Mianmar, onde o contrabando muitas vezes corre
solto, a manutenção de registros é deficiente e os donos de minas com
frequência impedem a presença de comerciantes de fora por medo de que
façam seus próprios negócios com os moradores locais.
Mineiros operam manualmente polias para extrair
terra numa mina rudimentar no Sri Lanka, à procura de pedras preciosas
R.W. Hughes
Em alguns casos, especialistas como
Hughes compram pedras de garimpeiros ou intermediários e as revendem a
clientes ricos. Há gemas que chegam ao público através de atacadistas
que as compram em leilões ou mercados abertos na Tailândia, Índia e
outros centros de processamento. Só num leilão em Mianmar, em 2011, as
vendas chegaram a US$ 2,8 bilhões. De qualquer forma, os compradores de
pedras preciosas raramente têm ideia de onde vieram as pedras e, mesmo
se quisessem, provavelmente não teriam como descobrir sua origem. Quando
se trata de rastrear os dados mais básicos sobre quais países produzem a
maioria das pedras, a indústria é "muito vaga", diz Jean Claude
Michelou, vice-presidente da Associação Internacional de Pedras
Preciosas Coloridas, entidade que representa o setor.
Na
verdade, é praticamente impossível encontrar um diretor-presidente ou
grandes acionistas por trás das maiores minas de rubi ou safira do
mundo. Em Mianmar, país há muito considerado a principal fonte mundial
de rubis e jade, muitas minas são controladas pelos militares ou seus
colaboradores mais próximos, incluindo alguns que são alvo de sanções
dos Estados Unidos impostas anos atrás para punir o autoritário regime
militar do país. (Embora muitas dessas sanções tenham sido relaxadas nos
últimos dois anos, quando um novo governo reformista começou a reverter
décadas de rígido controle militar, algumas restrições sobre as pedras
preciosas de Mianmar foram mantidas.) Mas as pedras também podem vir de
caçadores privados de fortunas cujas identidades são desconhecidas fora
de seus países. Um dos magnatas que Hughes conheceu durante uma perigosa
caçada a jade em minas da remota Hpakant, em Mianmar, era um
ex-motorista de táxi que começou com uma pedra bruta que comprou por US$
23 de um passageiro e a revendeu por US$ 5.000 para um comerciante de
jade. (Quando Hughes o conheceu, em 1996, ele posou para uma fotografia
sobre uma pilha de pedras de jade que ocupava uma sala inteira de sua
casa.)
O caçador de pedras Richard Hughes emerge das profundidades de uma mina em Mianmar
R.W. Hughes
Ao mesmo tempo em que é difícil
acompanhar o crescimento da indústria, os especialistas dizem que os
preços vêm subindo significativamente nos últimos anos, em grande parte
porque o fornecimento é inconstante. Robert Genis, um comerciante e
caçador de pedras preciosas do Arizona que entrou para o negócio na
década de 70, diz que os rubis de alta qualidade de Mianmar
quadruplicaram de valor no varejo, para mais de US$ 40.000 o quilate,
desde meados da década de 90, enquanto as esmeraldas colombianas
praticamente dobraram de valor em relação ao início dos anos 2000.
Hughes, que já viajou para mais de 30 países em busca de pedras e agora
vive em Bangkok, diz que os preços do jade aumentaram em dez vezes nos
últimos cinco anos, devido em grande parte ao aumento da demanda da
China, embora recentemente os preços tenham caído ligeiramente.
Para
quem estiver disposto a manter suas pedras por um longo período, o
retorno pode ser enorme. Considere a safira de 62 quilates que John D.
Rockefeller Jr. comprou de um marajá indiano em 1934 e a transformou em
um broche para sua esposa. A família vendeu a pedra em 1971 a um
negociante de joias por US$ 170.000. Nove anos depois, ela voltou ao
mercado e foi vendida por US$ 1,5 milhão e, em 2001, foi revendida por
mais de US$ 3 milhões. Outra safira famosa, comprada pelo empresário
James J. Hill para sua esposa na década de 1880, por US$ 2.200, foi
vendida por mais de US$ 3 milhões em um leilão em 2007. E há ainda o
rubi de 8 quilates de Mianmar dado a Elizabeth Taylor pelo marido, o
ator Richard Burton, em 1968, como presente de Natal. Em 2011, ele foi
leiloado por US$ 4,2 milhões.
O diamante
ainda continua a ser o melhor amigo de uma mulher, como disse uma vez a
atriz americana Marilyn Monroe, mas as pedras coloridas continuam a ter
um fascínio quase místico. Parte da atração está ligada à sua beleza
luminosa e à sua raridade. Para muitas pessoas ricas, especialmente na
Ásia, não há nada como ter uma coleção de pedras brilhantes que podem
transportar ou esconder para vender em caso de emergência. Isso se
tornou ainda mais comum com a crise financeira global.
Encontrar novas grandes pedras para
saciar a demanda mundial, porém, não é tarefa fácil. É aí que os
caçadores entram em ação. Genis, o negociante do Arizona, diz que entrou
nesse negócio ainda na faculdade, quando estudou mapas para ver onde
estavam os recursos naturais mais cobiçados do mundo, incluindo estanho,
ouro e cobre. Foi o pequeno símbolo verde na Colômbia, representando
depósitos de esmeralda, que mais o atraiu. Ele vendeu um aparelho de som
e um carro velho, juntando US$ 1.000 para a viagem.
Após
uma viagem de ônibus até a fronteira da Califórnia com o México, alguns
trens e muitas caronas, Genis desembarcou no distrito de esmeraldas de
Bogotá e usou o dinheiro que lhe restava para comprar pedras preciosas.
Voltou aos EUA e duplicou o investimento vendendo as pedras. "De
repente, tinha US$ 1.000 a mais e pensei: 'Isso é muito melhor do que ir
para a faculdade'", lembra. Após várias visitas, ele estava ganhando o
suficiente para ir de avião à Colômbia, com paradas para se divertir no
Caribe.
Hoje, Genis contrata outras
pessoas para buscar muitas das pedras que vende, incluindo um associado
de Mianmar que conheceu durante uma conferência de pedras preciosas e
tem conexões com os famosos depósitos de rubi de Mogok. Apesar de não
serem tão selvagens como em Hpakant, as minas de Mogok também são
estritamente vigiadas por militares — e reverenciadas em todo o mundo.
O
apelo é evidente quando se considera o tipo de negócio que se consegue
por lá. A última descoberta de Genis: uma safira de 39 quilates que
agora está à espera de ser leiloada na
Sotheby's.
BID -1.64%
Genis diz que calcula que a pedra possa arrecadar até US$ 1
milhão na prestigiada casa de leilões. "Para muitos desses
colecionadores, é quase como heroína: quando você começa, não consegue
parar", diz.
À medida que a demanda por
pedras preciosas coloridas continua crescendo, uma questão permanece no
ar: será que essa indústria pode se autorregular? Parte da resposta pode
estar a meio mundo de distância de Mianmar, em Londres, no nobre bairro
de Mayfair. Lá, um grupo de veteranos da indústria de mineração está
elaborando seu próprio plano para obter mais pedras coloridas.
A
empresa do grupo, a Gemfields, está tentando se tornar uma potência da
indústria, algo como a De Beers das pedras coloridas. Apoiada por um
ex-diretor-presidente da mineradora anglo-australiana
BHP Billiton,
BLT.LN -1.57%
a maior mineradora do mundo, e com ações negociadas na Bolsa de
Londres, a Gemfields afirma que tem a meta de assegurar os direitos
sobre uma percentagem grande o suficiente da produção mundial de pedras
preciosas para introduzir processos modernos de mineração e, assim,
garantir um fornecimento mais previsível, ao mesmo tempo em que investe
pesadamente em marketing para tornar as pedras mais conhecidas.
Ian
Harebottle, o sul-africano que é diretor-presidente da empresa, diz que
pedras coloridas costumavam ser tão populares quanto os diamantes até a
década de 40, quando a De Beers começou a pôr em ação seu gigantesco
orçamento de marketing, com slogans como "um diamante é para sempre".
Hoje, as vendas de pedras coloridas são apenas uma fração dos US$ 70
bilhões do comércio internacional de diamantes, e os mineradores de
pequeno porte que dominam o negócio não têm o dinheiro ou a escala
necessários para fazer muita coisa, diz ele.
A
Gemfields já produz 20% das esmeraldas do mundo, em uma grande mina da
qual é sócia na Zâmbia. A empresa informa que é responsável por até 40%
da oferta mundial de ametista e está começando a produzir rubis em um
grande depósito em Moçambique. A Gemfields quer se expandir em outros
lugares — inclusive Mianmar, se o governo do país mantiver o ritmo da
reformas e a situação dos direitos humanos melhorar, diz Harebottle.
A
Gemfields também comprou recentemente a Fabergé, famosa marca de joias
que remonta à era dos czares russos. A ideia é usar a Fabergé, que tem
lojas em todo o mundo, para comercializar algumas de suas pedras no
segmento ultraluxo, à medida que cria uma das primeiras cadeias do mundo
de fornecimento de gemas coloridas do tipo "da mina ao mercado".
As
iniciativas da Gemfields ocorrem em meio a outras tentativas por parte
de investidores para trazer práticas mais modernas para a indústria,
incluindo disponibilizar mais amplamente as informações de preços e
melhorar a classificação das pedras e o monitoramento de práticas, de
modo que os consumidores possam ter um ideia melhor sobre quanto valem
suas pedras e de onde elas vieram. Funcionários da Associação
Internacional de Pedras Preciosas Coloridas, por exemplo, estão
pressionando pela criação de um sistema para rastrear as origens das
gemas coloridas. Michelou, da associação, diz que alguns países,
incluindo Colômbia, Tanzânia e Sri Lanka, têm manifestado interesse.
Ao
mesmo tempo, outras empresas estão criando cadeias de fornecimento "da
mina ao mercado" e atualizando seus métodos de produção. Entre elas está
a
TanzaniteOne
RLD.LN 0.00%
Mining e sua controladora, a britânica Richland Resources Ltd.,
que têm ajudado a transformar o mercado de tanzanita ao investir em
minas que antes eram artesanais na região do Monte Kilimanjaro, onde
estão os únicos depósitos da rara pedra azul conhecidos no mundo. E até
mesmo as minas de Hpakant, em Mianmar, estão adotando mais mecanização
nos últimos anos, com máquinas de terraplenagem substituindo muitos
trabalhadores, embora o local, em geral, continue fora de controle. Tudo
isso poderia um dia impulsionar o valor das pedras coloridas caso
consiga tornar as fontes mais confiáveis e aumentar a demanda.
"A
indústria de pedras coloridas provavelmente irá nessa direção, [de]
mineração mais racional e mais formal", diz Russell Shor, analista do
Instituto Gemológico dos EUA, uma das maiores autoridades do mundo em
pedras preciosas. "Vai ser um processo lento, mas creio que seja esse o
futuro."
No entanto, muitas pessoas,
incluindo vários caçadores de pedras, permanecem céticos. Os principais
depósitos de pedras do mundo, afirmam, são muitas vezes pequenos demais
para justificar grandes investimentos e às vezes podem ser explorados de
forma mais eficiente com ferramentas manuais primitivas. As minas estão
tão espalhadas e em lugares tão irregulares que poderia ser muito
complicado — sem falar no custo — trazê-las para a era moderna. "Quantos
trilhões você tem?", pergunta Genis. "Com exceção dos diamantes, a
maioria das fontes de pedras preciosas é antiga e as melhores pedras já
se foram." Tentar integrar as minas, diz ele, "seria praticamente
impossível".
Hughes, o caçador de pedras
que vive em Bangkok, concorda. Segundo ele, as pessoas sempre se
interessaram em trazer mais ordem para o comércio de joias. Mas a Mãe
Natureza protege seus tesouros muito bem, escondendo-os em locais de
acesso extremamente difícil, diz ele, e as pessoas que cuidam deles têm
pouco incentivo para entregar o controle a Londres, Wall Street ou
qualquer outro interessado.
"As pedras
preciosas são diferentes de outros tipos de mineração", diz Hughes,
porque há uma alta concentração de valor em áreas muito pequenas e
relativamente poucas pedras. Além disso, apenas as pessoas, e não as
máquinas, podem separar espécimes valiosas das que não valem nada — e
isso inclui os garimpeiros artesanais que hoje controlam grande parte
dessa atividade. Se as grandes empresas tentarem impor mais ordem, diz
ele, "sempre haverá pessoas encontrando formas de contorná-la".


